O despertar da sensibilidade para a arte

Era uma manhã como todas as outras. Sentei-a ao balcão para que tomasse o pequeno-almoço. De cabeça encostada à janela contempla as árvores de tronco alto e múltiplas copas. Abro a porta do armário para de lá tirar a caneca para o leite. Reparo na minha caneca do Fernando Pessoa, volto a baixar os olhos na pequenita, Hoje queres beber o leitinho na minha caneca? Empresto-ta. Sabes, é a minha preferida. É do Fernando Pessoa, o meu poeta preferido. Diz aqui: ”Eu sou do tamanho do que vejo, não do tamanho da minha altura.” Achas bonito? O que achas que quer dizer?  Ficamos em silêncio por brevíssimos instantes. Fazemos assim, eu vou repetir a frase e tu olhas novamente lá para fora, olhas bem para veres bem as árvores a dançarem com o vento que acordou agora, os passarinhos que voam a anunciar que é hora de acordar, ainda está tudo em silêncio, tudo a dormir, tudo a despertar… “Eu sou so tamanho do que vejo, não do tamanho da minha altura.” Bebeu um gole de leite desenhando um grande e branco bigode em torno dos lábios sonolentos. Tranquila mas de olhar franzido e contemplativo sobre a paisagem, Quer dizer que eu não sou só daqui até aqui – leva uma mão aos pés, outra à cabeça, sou do tamanho das coisas todas que eu estou a ver. Fiquei extasiada com a sua resposta que me chegou com a naturalidade e simplicidade descomplicada que só as crianças têm. Seis anos e tanta sabedoria no coração. Claro que confirmei a sua conclusão e expliquei-lhe que tudo o que nós vemos nos faz crescer. Que não somos meros centímetros, mas o que absorvemos do que vemos, experienciamos e partilhamos. Que é isso que faz de nós uma pessoa completa, em razão e emoção. Claro que nos alongámos sobre paralelismos, como os desenhos dela nos fazem crescer a nós, a sua família, que ficamos maravilhados com as coisas que ela se lembra de desenhar. Assegurei-lhe com efusão que nos surpreende sempre com os seus desenhos repletos de movimento, expressão, detalhes cheios de atenção delicada com os quais nos perdemos em comentários durante os pequenos-almoços do fim-de-semana. Expliquei-lhe que tudo isso faz parte do olhar que ela devolve ao mundo, ao que a rodeia. E que isso é poesia, mas enquanto ela pinta imagens com traços e cores, a Poesia pinta imagens com palavras, assim como a música pinta imagens com ritmos e melodias. Explico-lhe que a música, a dança, a pintura e o desenho, a poesia despertam sensações e emoções dentro de nós que nos permitem olhar para tudo com mais beleza. Transforma-nos por dentro. Explico-lhe que isso é Arte. Cinco anos. De pequenino se cultiva a poesia, o amor pela arte.

Sensibilizar para a Arte faz-se desde o berço. Com uma música que lhe sussurramos ao ouvido. Com um quadro que lhes penduramos no quarto e mais tarde lhes chamamos a atenção para os elementos. Com perguntas simples: gostas desta música? Porquê? O que te faz sentir? Olha aquele quadro, não é giro? O que te parece esta flor? Não parece frágil e forte ao mesmo tempo? Frágil porque as suas pétalas são delicadas, forte porque as suas cores são vibrantes? Quando pensas no azul o que sentes? E com o amarelo? O que vês quando fechas os olhos? Repara nesta música. É triste mas é bela ainda assim, não é? O que te faz sentir?

São tudo possibilidades. Vários os caminhos. Nós os condutores dos exploradores. Não existem soluções certas e erradas. Apenas soluções que surgem por meio de tentativas e partilhas. A Arte transforma e obriga-nos a um olhar atento sobre o “eu” e sobre o outro. Quase terapeutico. Desenvolve competências de inter e correlação. Desenvolve a paciência que urge tempo. A Arte compreende e humaniza.

 

 

Prof. Susana Moura

Escrita Criativa

Professora de Escrita Criativa e Português para Estrangeiros (PLE)

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