Escrever diálogos! Ups! E agora?

Uma das dificuldades mais recorrentes que os alunos trazem para as aulas de Escrita Criativa concerne os diálogos. Dizem os alunos que os diálogos parecem pouco naturais, que os diálogos que se lêem nos livros correspondem pouco à oralidade real do cotidiano, não reflectindo a culturalidade da língua, que o vocabulário normalmente usado é demasiado elaborado, etc. Há realmente uma tendência a escrever com mais rigor no registo escrito em distinção da oralidade cheia de erros, muletas e vícios linguísticos. É bom que a haja, não se pretende uma escrita desorganizada, confusa, feia e pouco comunicativa.

Por outro lado, perante um momento de escrita que pretende chegar a um objectivo criativo/artístico, i. e., se estamos a escrever ficção, a fabular,a imaginar, seja em que género for, é necessário despojarmo-nos de convencionalismos e observarmos bem o que queremos reflectir. Os diálogos devem conter as expressões, as incorrecções, as impurezas da língua que fazem parte da oralidade da personagem que escolhemos desenhar e que poderia até ser uma pessoa real, pelo menos tem a intenção de representar tal – de forma mais directa ou indirecta.

É importante e salutar romper com formalidades a mais e fazer dos diálogos mais naturais, com palavras que usamos todos os dias, que ouvimos nos diversos círculos sociais, espaços que frequentamos, as expressões dos avós, da senhora da mercearia onde compramos a fruta, nas aulas, nos transportes que apanhamos todos os dias e deixar a naturalidade da língua, da cultura perspassar pelas personagens que construímos.

Nem todas as intervenções de diálogo têm de ser muito profundas ou longas. Pequenas interacções que traduzam a cultura de um povo, de uma profissão, de uma idade, seja o que nos for necessário. Em intervenções mais longas, não se esqueçam de pensar que a vossa personagem está a conversar. Nem tudo tem de ficar muito arranjadinho como num trabalho científico. E não se esqueçam do ritmo balanceado entre um ou outro interlocutor.

A proposta de resolução que aqui se apresenta passa pelo mesmo princípio apresentado no artigo sobre a construção de personagem que podem ler aqui. Observar e construir a partir do real, pois que a Arte reflete a vida e sobre a mesma e tudo o que dela faz parte e a dimensão da nossa imaginação depende da dimensão do nosso conhecimento. Por vezes, também nos falha simplesmente a memória.

Assim, para os mais crescidos:
Dêem corda aos sapatos, arregacem as mangas, papel e caneta e toca a ir para a rua com ouvidos atentos e registem tudo o que acham que a vossa personagem poderia dizer. Pesquisem os regionalismos, por exemplo, das vossas avós, vizinhas, da senhora da mercearia onde compram o pão ao domingo de manhã, trejeitos que ouvem alguém dizer em voz alta na rua.

Para os mais pequenitos: Não costumo fazer muita diferença entre pequenos e crescidos. Normalmente ensino o mesmo conteúdo mas de forma menos desenvolvida e num ritmo mais alargado. Sugiro o mesmo que para os crescidos – os pequenotes surpreendem-nos de forma abismal com a sua capacidade e entendimento – mas, podem começar por casa, a ouvir os avós, os pais, os pais também podem ajudar tomando registando frases que lhes sejam típicas e engraçadas. Depois será necessário analisarem que um menino de cinco anos diria certa e determinada frase ou palavra, se os avós o diriam, se o irmão ou irmã usa aquela determinada palavra e em que contexto.

Deixo-vos um exemplo concreto e verídico: Há uns anos atrás eu costumava beber café todos os dias na Calçada do Combro num daqueles cafés onde trabalham as mesmas pessoas há anos e que facilmente gravam o que cada cliente consome. Quando ia acompanhada, o empregado de balcão dava-nos sempre um “obrigadinhos” no final do café; se eu ia sozinha, ele personalizava com um “obrigadinha”. O senhor adequava o agradecimento ao número e género. Para mim, tornou-se uma personagem caricata e que me fazia sorrir; ao mesmo tempo traduz uma das confusões comuns com a língua portuguesa com muita graça. Tenho a certeza que um dia irei usar este “obrigadinhos” e “obrigadinha” para tipificar com graça algum empregado de balcão que um dia eu queira referir numa história que venha a escrever.

Prof. Susana Moura

Escrita Criativa

Professora de Escrita Criativa e Português para Estrangeiros (PLE)

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