Natal é magia no coração

Quando penso no Natal automaticamente sinto-me transportada para a casa dos meus avós. A ansiedade que sentia pela tão esperada noite em que se ouviam tachos e panelas a baterem lá bem ao fundo do corredor transformaram-se em magia que transporto em mim até hoje. Adoro o Natal e faço questão que tanto os meus filhos quanto os meus alunos – ou todos aqueles que contactem comigo sejam contagiados por esta magia que sinto no coração e que aumenta a imaginação em quilómetros. Não discuto a tradição, se é um Natal português ou se é da coca-cola. Se a vida é o que dela nós fazemos, o Natal será diferente porquê? O Natal não tem nacionalidade, tem magia no coração.

Quando chega o Natal, nas minhas salas de aula trocamos memórias, partilhamos costumes e contamos histórias: qual é a tua melhor memória de natal? O presente de quem mais gostaste? que é que comem na tua casa? Ainda alguém se veste de Pai Natal? Qual foi a coisa mais bonita que fizeste por alguém no Natal? E a que guardas com mais carinho?

Nas aulas de Português para Estrangeiros por vezes trocamos receitas, partilhamos as diferenças da celebração, dos hábitos, a que horas abrem os presentes – num nível inicial usamos apenas o Presente do Indicativo, no meu país o Natal é… a refeição é… / abrimos os presentes às… Quando o nível já é mais avançado podemos usar o Pretérito Perfeito do Indicativo, como foi o teu Natal no ano passado? Ou contar memórias e usar o Pretérito Imperfeito, quando eu era pequeno…

Bem, quando eu era pequena tive a sorte de ter uma família que se concentrava nisso, em construir um ambiente mágico à volta do Natal e do amoroso e misterioso senhor das barbas brancas:

As paredes eram bem maiores do que eu, os primos todos a correrem de um lado para o outro. A casa dos meus avós era um mundo para mim. Na parte da frente havia a loja, a Casa das Lãs, onde eu passava imenso tempo a fazer de conta que vendia botões e meadas de lã. A loja tinha uma porta lateral que dava para a sala e estava separada do resto da casa pelo tal infindável corredor que parecia demorar horas a percorrer. Na outra extremidade da casa ficava a cozinha, onde cada um dos netos tinha deixado um dos seus sapatos à espera que o Pai Natal descesse pela chaminé e debaixo do sapato deixasse o desejado brinquedo – não me lembro de desejar nada em particular, lembro-me apenas da ansiedade pelo chegar da hora.  Jantávamos, e à nossa mesa de jantar não faltava o bacalhau e Pão de Ló de Ovar  – presença assídua ainda nos dias de hoje. Esperávamos ansiosos pela meia-noite. Hoje, tenho noção que esse tempo de espera contribuía para o crescendo da fantasia. À meia-noite em ponto ouvia-se barulho de tachos e panelas, é o Pai Natal, é o Pai Natal, a correr lá nos organizámos na costumeira fila indiana. De mãos dadas, uns atrás dos outros, lá percorríamos o longo corredor às escuras, os adultos ao lado a fazerem de bússola. Eu sou das mais novas, era a mais pequenita. Lembro-me de ir de olho esbugalhado e atento a atravessar o temível escuro, a ver as sombras e a tentar descortinar alguma coisa, e o barulho cada vez mais alto mostrava que estávamos a chegar. Mas que longa caminhada! Ao chegarmos à cozinha, a caixa – na altura os brinquedos eram poucos mas muito adorados  – debaixo do sapato. Lembro-me de receber um bebé chorão que era maior do que eu. E eu abraçava-o apertado contra o peito, feliz, mas com os olhos de lado à procura do Pai Natal que já tinha escapado pela chaminé. Por vezes, ficava a espreitar para ver se ainda o via a subir, anda, ele já foi entregar os presentes aos outros meninos. Tem uma longa noite pela frente, dizia um dos adultos. Depois brincávamos na sala, mas por pouco tempo, que já era tarde.

Conto sempre esta minha história aos meus filhos e aos meus alunos. Por que o Natal é partilha, é bilheracos e rabanadas, bolo rei e gargalhadas, abraços e barbas brancas, luzes de natal.

À minha filha de 6, que já sabe que o Pai Natal não existe, explico que existe sim, na imaginação. Este ano já foi comprar o presente do mano comigo mas também foi entregar a carta ao Pai Natal, feliz e os olhos a brilhar. O meu coração rejubila, é isso mesmo, Natal é magia, é família, é amor que se oferece em forma de presente embrulhado e enlaçado.

E vocês? Qual é a vossa melhor memória de Natal? Por que não escrevê-la e oferecê-la? Deixo-vos o desafio!

Prof. Susana Moura

Escrita Criativa

Professora de Escrita Criativa e Português para Estrangeiros (PLE)

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