A Poesia é bicho-papão?

Quando se fala em ler poesia, olhos miúdos e graúdos reviram-se à procura da saída de emergência mais próxima. As editoras também não são lá muito receptivas às obras de poesia, a não ser as mais alternativas, por norma, as que estão no mercado mais pelo coração do que pelo cifrão – necessário para pôr o pão na mesa, naturalmente. Na saula de aula os alunos também fogem a sete pés, poesia não, poesia não!

Mas afinal, o que se passa com a poesia? É algum bicho que nos vem comer os pés enquanto passamos os olhos pelos versos? Será que nos revolve o cérebro e o deixa em papas? Claro que não! Mas é realmente um género literário que exige mais do leitor. A menina Poesia não quer nada com pressas. É preciso ler, saborear, mastigar com o pensamento e com o coração – razão e sentimento de mãos dadas. Por vezes, dialoga com outros autores, com outros textos, com outras áreas do saber, pode criar relações intertextuais e por isso pode requerer conhecimentos diversos, outras tantas requer apenas a degustação, a contemplação, pinta quadros com as palavras para nosso aprazimento. Sim, é verdade, a poesia é exigente.  E o que fazemos perante a exigência? Fugimos ou deixamos que nos transforme?

A verdade é que na sala de aula acontecem três erros no ensino da poesia:

  • perde-se demasiado tempo com a análise do esquema rimático em vez de ser dada importância ao conteúdo, à compreensão do poema em si. Levanta-se a questão: mas qual é o objectivo? Saber empinar as rimas ou saber ler e interpretar um poema, o texto em si? A forma não deverá sobrepor-se ao texto, ao que o autor deixou ao leitor. A forma – que comporta a rima, a organização dos versos na estrofe ou corpo do poema e afins – é mera moldura das palavras; tem o seu lugar de importância mas não pode ocupar o primeiro lugar do pódio.
  • ao aluno não é dada grande margem para que desenvolva a sua própria interpretação caso ea sua leitura não case com a interpretação já programada, esteriotipada e que podemos todos ler em muitos livros de apoio ao aluno (ou nos livros dos professores); quer isto dizer que existem muitas interpretações e análises dos poemas dados em aula que já estão tipificados, estabelecidos como única(s) interpretação(ões) para aquele determinado poema e se o aluno não der a resposta considerada expectável (a programada), então está incorrecta. Lembremos superficialmente o conceito da obra aberta que diz que a partir do momento que a obra é publicada deixa de pertencer ao autor e passa a pertecer ao leitor. Somos todos diferentes, vamos todos retirar diferentes interpretações/sensações/raciocínios/julgamentos de um mesmo dado. Por outro lado, esta subtil imposição de interpretação inibe/atrasa o desenvolvimento da competência de interpretação e criatividade abstrata do aluno tão necessária para a vida funcional. Não querendo dizer com isto que, pertencendo a interpretação ao leitor, o texto não exija estudo e fundamentação. Exige, naturalmente, e muito mas também oferece liberdade.
  • o terceiro erro prende-se com a interpretação generalista que os alunos fazem de um poema: lêem e depois dizem, ah, este poema fala do descontentamento do mundo, o amor edílico… não. Os poemas são para serem considerados no seu todo, têm uma narrativa, uma história mais ou menos linear, mais ou menos objectiva, mas têm. Vamos lá respeitar o autor. Não podemos traduzir um poema num único conceito ou palavra, o mesmo se passará com um verso. Para que se terá dado ao trabalho o autor de escrever todas aquelas palavras se o leitor as traduz em tão pouco? A interpretação não é de todo um resumo.

 

 

Breves sugestões:

Seria muitíssimo interessante que ao ensinar-se poesia se ensinasse o valor símbólico que as palavras têm na literatura e na poesia em particular:  o significado de vocábulos como noite, água, do sol, fortuna, etc.,  para que os alunos compreendessem mais suavemente. Seria uma ponte que facilitaria o entendimento da tal mensagem secretamente codificada pelo poeta. No caso dos Lusíadas, por exemplo, era interessante descobrir primeiro a mitologia antes do mergulho na leitura da obra em si.

É importante que na disciplina de Português se estabeleça um diálogo mais longo entre o poema e a disciplina da História, o contexto político-económico é importante mas compreender as mentalidades e vivências do tempo do autor é de igual importância; muitos alunos fazem uma interpretação da linguagem usada, das reacções, dos acontecimentos, entre outros, à luz da realidade de hoje. A contextualização poderá ser feita de um ponto de vista mais sociológico e também psicológico.

Num primeiro contacto com o poema, os alunos podem traduzir literalmente verso por verso, palavra por palavra, sem cederem à tentação das interpretações globais de um poema. Deverão ir à descoberta da história por detrás do “código”, que também tem princípio, meio e fim. Podem escrever a tradução mesmo ao lado do verso orginal.

É vital, na saula de aula, deixar que os alunos dêem a sua interpretação sobre o que leram e que não estejam restringidos a dar a resposta que todos podemos encontrar nos tais livros de apoio (que são bons para estudar, mas não podem substituir a criatividade dos alunos nem dos professores). Muitas vezes, os alunos ficam frustrados porque digam o que disserem só aquela resposta é que está correcta. Não é verdade nem assim poderá ser, é necessário dar espaço para que se respire a poesia, não poderá ser ensinada a correr nem de forma unidireccional. A Arte é viva e Poesia é arte.

Em qualquer leitura, poesia ou outro género, o dicionário é companheiro de presença obrigatória.

Depois, é só recostar e saborear.

Prof. Susana Moura

Escrita Criativa

Professora de Escrita Criativa e Português para Estrangeiros (PLE)

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