O senhor director que sabe nadar

Quando pensamos em piscina, invariavelmente pensamos em natação. Mas a realidade é que as piscinas oferecem muito mais que uns mergulhos. Há Fitness On Water, hidroginástica, pólo aquático, stand up paddle, hóquei subaquático, natação sincronizada, râguebi subaquático… uf! Há um sem-fim de actividades para os mais jovens, meio jovens e menos jovens que, literalmente, metem água. E quem nos conta tudo é Nuno Landeiroto, de 41 anos, director da Piscina Municipal de Barcarena – Professor Noronha Feio, onde o MiniStyle foi dar um mergulho e, pelo caminho, conheceu este também pai que é uma verdadeira inspiração.
Por Catarina Poderoso

 

É licenciado em Educação Física pela Lusófona. Porquê esse curso?
Tenho uma família muito ligada ao desporto; acabou por ser o caminho natural. Já em pequeno queria ser professor, ia só variando de quê. Às vezes era de Português, de Educação Física, de Matemática; era conforme as melhores notas que tinha, mas o ser professor esteve sempre presente, a ideia sempre foi essa. E depois, como sempre fiz desporto, acabou por ser uma escolha natural. Nunca pensei vir parar às piscinas, não foi esse o meu caminho desportivo, mas foi para onde a vida me quis trazer. Há coisas que nós não escolhemos. Se há uns anos me dissessem que era isto que ia estar a fazer, tinha-me rido.

É assim um presente tão improvável, o que tem agora?
Em pequeno sempre tive muitas otites. E, apesar de a minha família ligar, eu nunca liguei muito à natação. Enquanto a família fazia natação e pólo aquático, eu estava no basquetebol e no judo; fui seguindo outros caminhos.

Como começou então a “meter água”, ou seja, a trabalhar na piscina?
Por intermédio de um amigo, que me desafiou a dar aulas de natação para crianças, comecei este percurso. Depois, na altura, tinha uma namorada que também dava aulas na piscina, e ela tinha um colega que faltava muito. Perguntou-me se não queria dar aulas também. Como tinha algum tempo livre porque ainda estava a tirar o curso, fui ficando.

Então as piscinas já estão na sua vida profissional desde sempre.
Sim. O meu primeiro trabalho foram as aulas de natação. Mas quando acabei a faculdade, ainda dei aulas de Educação Física durante um ano, que era o que eu queria; trabalhei em ginásios, dei aulas de Educação Física em colégios também, não durante muito tempo; mas foi mais a piscina. A piscina esteve sempre lá.

E foi fácil deixar-se apaixonar por isto?
Acho que sim. Na altura tinha a tal namorada que percebia muito disto, e percebe, já que ainda trabalha nessa área, e acho que ganhei o bichinho com ela. Depois, estive dois anos na Escola Náutica de Oeiras e quando abriu a empresa Oeiras Viva, vim para cá dar aulas de natação. Passados três anos convidaram-me para coordenador técnico. Depois acabei por ficar como coordenador da piscina, e cá estou há 15 anos. Passa rápido, o tempo…

Passa rápido, mas têm sido 15 anos com desafios?
Sim, sim. Isto é uma empresa municipal, por isso, de quatro em quatro anos há alterações, faz parte. Isso também mexe um bocadinho com a dinâmica da própria empresa. Ultimamente, temos tido uma administração mais virada para a parte de eventos, com outro “know how”. Não é melhor nem pior, é diferente, mas que nos tem dado alguns desafios, como os programas de férias, eventos, etc. E isso é um desafio. Essa liberdade de podermos criar, fazer.

Quase que se pode criar mais dinâmica…
Sim, eu como não venho das piscinas, por assim dizer, tenho esse “problema”. A questão em Portugal é que as piscinas estão muito direccionadas apenas para a natação e para a hidroginástica. Tudo o que aprendemos nas faculdades, cursos, etc., é a treinar os miúdos para serem atletas de alta competição. Lá está, eu como não venho de uma área tão específica como da natação, tenho uma visão um bocadinho diferente que acho que já começa a ser mais alargada a nível nacional, pelas dificuldades que as piscinas têm, e que é uma piscina dá para fazer muitas coisas: dá para fazer Fitness On Water, hidroginástica, pólo aquático, stand up paddle, hóquei subaquático, natação sincronizada, râguebi subaquático… Há muita coisa que se pode fazer. E há muita coisa que está a surgir e que achamos que deve ser explorada. A meu ver, acho que as piscinas devem procurar ter o leque mais alargado possível de actividades, porque têm esse potencial. Não pode ser só natação. Os miúdos vêm para a natação porque os pais gostam, mas depois aprendem os básicos até aos 12 e param. Depois chegam aos 30 tendo ali um vazio. Há um vazio em quase todas as piscinas. Os miúdos ou vão para a competição ou param. E, sim, é um desafio trazer as pessoas antes de começarem a sentir dores nas costas, lá está, aos trintas e aos quarentas, para virem para a hidroginástica e para a natação. E o nosso papel é tentar colmatar isso. É o desafio.

Falou de uma série de actividades que se calhar são desconhecidas no nosso país.
Era o que estávamos a dizer, em Portugal as piscinas são para a natação. Não há modalidades, chamadas mais pequenas, ou, pelo menos, têm muita dificuldade em se divulgarem, sobressaírem, entrar no mercado. Nós aqui na Piscina acreditamos, e é o grande desafio que sentimos aqui, que com coração, com alma e com paixão as coisas avançam. O hóquei subaquático foi uma modalidade que começámos a ter aqui há três ou quatro anos e este ano apostámos um bocadinho mais a sério.
E qual a aceitação dos miúdos ao hóquei subaquático?
Eles adoram. Ao início pensei que tínhamos poucos miúdos, mas se calhar isso acontecia por não haver um modelo de competição ainda. Este ano temos um professor que é um cromo do hóquei em Portugal, o David Teiga, que tem uma boa dinâmica e imenso jeito para os miúdos e, juntos, temos conseguido puxar por isto. A motivação que os miúdos têm nas aulas é o que nos faz pegar nisto. São miúdos que não faltam, são certinhos e isso é que é o motor para a coisa funcionar. Já temos perto de 30 miúdos, com esta piscina e com a da Outurela.

Têm uma parceria com a AquaCarca. É importante essa partilha?
Acaba por nos ajudar pois, sendo nós uma empresa municipal, não podemos competir. Assim, os miúdos podem entrar em competição com a AquaCarca, o que acaba por ser um estímulo extra para eles. Há um protocolo: nós fazemos a formação e eles tratam da competição. Claro que não são fáceis de fazer estes acordos, mas felizmente têm corrido bem e tem tudo para continuar. Quando vamos às competições, vamos juntos, apesar de só formarmos os atletas. Para nós é bom porque nos dão o “know how” da parte competitiva. E tem que ver também com a personalidade, minha e do David Teiga, do AquaCarca, pois puxamos um pelo outro. Por exemplo, quando queríamos começar a competir, falámos em Oeiras, Cascais… mas quando demos por nós ao fim de um ano os miúdos desta e de mais duas piscinas já foram a um torneio em Sevilha, que foi muito giro. Os miúdos e os pais adoraram. Foi uma experiência muito gira.

E ficaram bem colocados?
Não (risos)! Mas não foi por isso que fomos. Para miúdos dos 12 aos 15 anos, acaba por ser uma experiência única!

Tem saudades de dar aulas na piscina?
Tenho saudades do ensino, mas de dar aulas de natação nem por isso. Gosto de fazer outras coisas. Mas se calhar não tenho saudades porque de vez em quando dou umas aulas, tenho sempre essa opção. Não desapeguei. Gostava de dar aulas na escola, embora hoje em dia não seja fácil pois o papel do professor é muito burocrático. Mas aquilo que tem mesmo que ver comigo é o ensino; a relação com as crianças. O que tem vindo a crescer foi esta possibilidade de dinamizarmos as actividades todas da piscina; apaixona-me criar, este desafio de desenvolver; de criar os campos de férias, que eles evoluam, que tenham mais actividades e com programas mais atractivos. No fundo, tenho vindo a descobrir que não consigo estar quieto! Pensava que era pacífico e tranquilo, mas tenho vindo a descobrir que sou o oposto. Tenho que andar sempre a pensar em coisas, como é que podemos fazer para ter mais gente nas actividades, como criar mais eventos…

Falou de um torneio em Sevilha no ano passado. Há mais no horizonte?
Uma das coisas que temos andado a procurar é torneios fora da nossa piscina; com provas de natação onde possamos levar os miúdos. No fundo, aproveitar algo que já esteja feito para nós levarmos quem anda nesta piscina. Queremos proporcionar aos miúdos e aos adultos vivências diferentes, experiências que ficam. Por exemplo, pegando na natação sincronizada, que já temos há cinco anos, vamos tendo eventos aqui, mas já estamos à procura de mais qualquer coisa. Achamos que as miúdas já se estão a habituar muito a estar aqui. Temos que lhes proporcionar uma ansiedade diferente, até pela diferença da piscina, dos balneários… acho que vai ser muito bom para elas!

Sendo director de uma piscina, há uma pergunta que se impõe: dá um mergulho todos os dias?
Costumo dizer que isso é como pedir a um nadador-salvador para no dia de folga ir para a praia. (risos) Estou a brincar… agora por acaso tenho nadado mais um bocadinho.

Falemos agora nas competições para os mais “crescidos” pois, se as dos miúdos são pouco conhecidas, se calhar as dos adultos são ainda mais…
A natação para mim tem uma dificuldade: o ser humano, por natureza, tem necessidade de se agrupar. A natação tende a ser um desporto solitário. Há pessoas que gostam disso, outras que não. É como quando vou ao ginásio: é mais fácil se for com companhia. Neste caso, com os adultos, é um bocadinho isso. Mas vamos tendo provas. Temos o Triatlo, por exemplo, em que dá para formar grupos para as pessoas fazerem a corrida. A ideia passa por termos actividades para todas as idades, géneros e feitios.

Os vossos campos de férias também são um sucesso.
A nossa preocupação é ter os campos de férias bem montados, com qualidade e com crianças. Quando se gere a pensar em dinheiro, as coisas acabam por falhar. Não pode ser o foco, a receita. Mais cedo ou mais tarde, vamo-nos esquecer da essência. Para nós, nos campos de férias o mais importante é os miúdos voltarem. Na piscina, o mais importante é os miúdos chegarem a casa e dizerem que querem voltar. Não há que ter pressa que os miúdos avancem de nível. Quando a motivação existe, a aprendizagem é rápida.

E qual a relação do seu filho com a piscina, com a natação?
Ele sempre foi do género: “vou ali com o meu pai à piscina dele; ele é que manda nisto!” O Alexandre tem 10 anos, mas desde pequenino que se habituou que a piscina era dele; porque eu trabalhava nela e a geria. Ao início, adorava vir para a piscina, para nadar e estar na água, mas depois, para ele, aulas com professores é difícil (risos). A praia dele é mais o futebol. Já a minha enteada, a Iris, de 12 anos, anda na natação e na sincronizada e adora.

Mas é importante passar-lhes o bichinho da natação.
A natação é o desporto mais completo. E hoje em dia, numa sociedade tão virada para as tecnologias, para o estar sentado muitas horas e para o peso excessivo das mochilas dos mais novos, é muito importante nestas fases escolares a natação porque vai prevenir lesões futuras. No fundo, a natação vai ser o único desporto a trabalhar como um todo. Eu digo ao meu filho, que joga futebol, que ainda vai ficar com as pernas arqueadas. Claro que o estou a provocar, a desafiar para vir para a piscina, mas a realidade é que a natação, o desporto na água, deveria fazer parte da vida de todos e de todas as idades.

 

 

 

 

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