TPC’S, sim ou não?

Os Trabalhos de casa são um tema que enchem as medidas de qualquer conversa de café seja dos adultos ou dos mais jovens. Todos se queixam do insucesso escolar, trocam galhardetes acusativos e os TPC’s têm costas largas, mas não serão com certeza o grande responsável.

Os argumentos vão da quantidade ao tempo disponível para os fazer, ao tempo de brincadeira que retiram às crianças, à sua validação enquanto ferramenta de aprendizagem. Mas será que os trabalhos de casa são assim tão maus ou será que bastaria dar-lhes uma nova abordagem, um novo olhar? Afinal, mudam-se os tempos, mudem-se os TPC’s!

É verdade que hoje em dia as crianças têm um dia-a-dia sobrecarregado, mas isso é uma questão de organização de agenda e prioridades; aos pais é exigido tempo para trabalhar, muito tempo, antes do Sol nascer e bem depois desse se deitar, férias e fins-de-semana adentro; aos professores é exigido o cumprimento de metas sem olhar às condições dadas para as atingir – além do extenso conteúdo programático de cada disciplina, há ainda as festividades e datas especiais a celebrar/explicar, projectos interdisciplinares que retiram imenso tempo lectivo.

Tudo é essencial. O sistema escolar está principalmente organizado de modo a tentar cumprir o que é nacionalmente exigido, e que muitas vezes passa por uma posição nos rankings (Portugal a posicionar-se face à Europa), não o que as nossas crianças e jovens realmente precisam para desenvolver as suas competências salutarmente de modo a tornarem-se adultos competentes e felizes.

Antes de chegarmos aos TPC’s é preciso dar tempo a quem os tem que fazer, os miúdos. Tempo para estarem em casa, tempo para partilharem com os pais. Logo, é igualmente necessário dar tempo aos pais. Um tempo que hoje pouco existe. As crianças que já têm o dia tão sobrecarregado de aulas vêem os pais a intensificarem-no ainda mais com as actividades extracurriculares devido à pressão causada pela falta de tempo – e estes num processo de culpabilização e frustação.

Há efectivamente uma desregulação no que diz respeito às prioridades reais das crianças e jovens. Entre as aulas de xadrez, o treino de futebol não há tempo para ler um livro, para fazer uma pergunta ao pai enquanto este cozinha o jantar, para partilharem dúvidas à hora de o comer. Sendo de igual importância os momentos de distração e divertimento que essas actividades proporcionam, tudo é uma relação de equilíbrio entre quantidade e qualidade.

De entre várias funções, o trabalho de casa ajuda a consolidar o que foi aprendido em saula de aula com vista a fortificar as ligações neurológicas, sem dúvida, num ritmo exigido pelas metas que a sociedade estabelece. Uma outra função é a de conduzir o aluno a desenvolver a sua própria gestão de tempo e métodos de estudo.

O TPC tem serventia assegurada mas não tem de fazer a vez da escola, nem de ser muito extenso, nem ser meramente executar tarefas de livro aberto à secretária. A abordagem pode ser mais leve, divertida e pode servir de ponte de comunicação entre escola e casa, uma oportunidade para mostrar e partilhar em casa o que se fez na escola durante o dia. Pode invadir a mesa do jantar lendo o pacote de sumo, um jogo de cáculo matemático enquanto se põe a mesa, a leitura partilhada de uma estória antes da hora de deitar – a criança lê uma frase e o pai o resto do parágrafo, por exemplo -, um jogo de palavras relacionado com os temas da escola durante uma viagem de carro, conversar sobre um poema, ver um documentário histórico, uma entrevista aos familiares sobre a história da família.

Por outro lado, não é porque os tempos mudam que se mudam todas as estratégias e hábitos de trabalho. Existem muitas ferramentas pedagógicas que foram anteriomente pensadas e que têm a sua validade, o problema passa muitas vezes pela forma como se aplicam essas ferramentas. Os apontamentos, por exemplo, continuam a ser de grande utilidade mas somente se forem feitos como é suposto. Nada de copy paste de um site para um ficheiro onde não foi requerido ao aluno que processasse qualquer informação, nem vislumbre de olhar, quanto mais reflexão e conclusão.

Este é um dos principais reais problemas. A forma como os jovens estudam e a falta de vigilância/acompanhamento, a falta de tempo para o cumprir. Fazer um apontamento não é copiar, é ler informação, reflectir e escrever com as suas próprias palavras, o que requer que se tenha compreendido o que foi lido. Poder-se-á dizer que haverá outras formas de chegar ao mesmo resultado. É verdade. O número de possibilidades depende da criatividade e do gosto pessoal de cada um. Novos conhecimentos trarão novas estratégias. Todos ganhamos com a diversidade.

Dá-se muitas vezes o caso finlandês como modelo exemplar e a seguir, mas  na Finlândia os TPC’s não foram extintos, ocupam apenas cerca de três horas semanais. A sociedade portuguesa não está organizada de modo a respeitar as necessidades das crianças e dos jovens. Está organizada para trabalhar e apresentar resultados. É preciso desacelerar e devolver o tempo às famílias para que as crianças se cumpram. O resto é colheita do futuro. Semear hoje para colher amanhã.

 

Prof. Susana Moura

Escrita Criativa

Professora de Escrita Criativa e Português para Estrangeiros (PLE)

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